sexta-feira, 28 de abril de 2017

A ‘greve geral’ do dia 28 de abril de 2017: as reformas e o desmantelamento melancólico do ‘corporativismo societal’.

A sociedade brasileira passou por um processo de transição do modelo ‘corporativista de Estado’ (sindicatos hierarquicamente organizados autorizados e/ou criados pelo Estado) formatado nos anos 1930 e 1940, na chamada Era Vargas, para o ‘corporativismo societal’ do chamado ‘novo sindicalismo’ dos anos 1970 e 1980. Este último não foi uma imposição do Estado, mas uma conquista de grupos de interesses da sociedade, e não é tutelado ou controlado pelo Estado como acontecia no modelo anterior.
No entanto, mesmo sendo uma inciativa de grupos organizados independentes do Estado, a estrutura do novo sindicalismo manteve os mesmos vícios da estrutura anterior. Os sindicatos se apropriam de milhões de reais dos salários dos trabalhadores e não prestam contas. O controle social neste caso é muito frágil. Sem contar as famílias ou grupos que controlam alguns sindicatos por décadas.
A chamada ‘greve geral’ do dia 28 de abril de 2017 está mais para um ‘movimento grevista’. É verdade que as cidades pararam. Mas, isso aconteceu porque os sindicatos de transportes públicos, que são controlados por grupos quase 'seculares’, não deixaram as pessoas chegarem ao trabalho. Ficou evidente a estratégia desesperada de uma estrutura que existe para se locupletar, em descompasso com os interesses da sociedade de um modo geral.
Sem a estratégia do ‘autoritarismo social’ posta em prática pelos sindicalistas que impediu o funcionamento dos transportes públicos, e os trabalhadores de ir e vir, algumas vezes de forma violenta, é possível que não tivéssemos o que comentar sobre este dia. Ficou evidente o fosso que existe entre os pequenos grupos que compõem uma elite sindical anacrônica e a sociedade de um modo geral.
O que pode ser destacado desse processo é o conflito que ocorreu entre os sindicalistas e a sociedade. Foram vários incidentes nos quais pequenos grupos tentaram impedir o direito de ir e vir das pessoas com uso da força, o que gerou mais insatisfação do que adesão social.
Se alguns Deputados e Senadores ainda tinham alguma dúvida sobre o que pensa a sociedade acerca das reformas, a impressão que fica é de que aprova. Não houve adesão da sociedade à uma ‘greve geral’. Não vimos milhões de pessoas nas ruas.
A ação das centrais sindicais e dos mais de 5.700 ‘sindicatos de trabalhadores’ expõe a falta de representatividade social de uma estrutura corporativista capturada por uma elite encastelada no poder. A chamada ‘greve geral’ é representativa de uma estrutura arcaica e obsoleta.
As reformas não vão resolver todos os problemas, mas vão no sentido de liberar o país dessa ‘república sindical’. Com o fim do imposto sindical apenas os sindicatos que justifiquem a existência devem permanecer, e isso significa que a maioria esmagadora deve desaparecer. E o mais importante, o trabalhador vai ter o direito de escolha.
A Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT) é uma grande conquista da sociedade brasileira, e a reforma proposta pelo governo não acaba com ela. Muito pelo contrário, a reforma proposta mantém conquistas e inclui elementos da contemporaneidade nas relações de trabalho adequadas ao século 21, com a criação de uma dinâmica mais independente do Estado, de estímulo à produção e à produtividade. O discurso contrário é falacioso e representa interesses de grupos políticos, sindicais, de advogados trabalhistas etc., mas não da sociedade.
A reforma da previdência tem a mesma lógica de adaptar elementos da contemporaneidade com sustentabilidade. A proposta vai no sentido de acabar com privilégios. Não dá para ter um discurso progressista e defender privilégios, que é a base da legislação atual.
Se devemos ter compaixão com os jovens que serão alcançados pela nova legislação, devemos pensar que são estes mesmos jovens que pagarão as contas dos privilégios dos que lutam para mantê-los. A reforma representa o fim das aposentadorias integrais aos 50 anos de idade com menos de 30 anos de contribuição. Isso é justo?
Manter o sistema atual não é sustentável. Nenhum país pode suportar isso. Aliás, o Estado brasileiro está quebrado. O estado do Rio de Janeiro é um exemplo do que isso representa. Muitos ainda não acreditam que mesmo sendo funcionários públicos federais correm o risco de não ter uma aposentadoria tranquila, pois o dinheiro do Estado também tem limite e não cai do céu. Outras reformas mais duras certamente virão, pois alguém tem que pagar a conta.
Ou o país economiza, ou não terá como pagar os salários e aposentadorias. Quem acredita no discurso de que a reforma vai levar o trabalhador à ‘escravidão’ é melhor ler a proposta de reforma para não ser manipulado por interesses populistas, patrimonialistas e corporativistas.

O modelo atual se esgotou e é preciso mudar. As mudanças vão no sentido da flexibilização e do fim dos privilégios. Em algum momento a sociedade brasileira vai ter que aprender a viver sem a tutela do Estado, e sem as suas 'tetas'. Chegou a hora de começar. 

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Dilma, ‘golpe’ e projeto de poder: o Brasil do patrimonialismo e do fisiologismo.

A presidente afastada Dilma Rousseff (PT) alega que o impeachment em curso no Brasil é um ‘golpe’ para tirar do poder um governo legitimamente eleito. Dilma afirma que não tem conta na Suíça e que não cometeu crime de responsabilidade, portanto, não poderia ser afastada.
Desde as manifestações de rua de 2013, ainda no primeiro governo Dilma, a crise política é um dos principais temas dos jornais e redes sociais no Brasil. Passada a eleição para presidente em 2014, soma-se a crise econômica e a corrupção como herança dos governos petistas.
A presidente Dilma se elegeu dizendo aos brasileiros que a situação econômica e fiscal do país estava equilibrada. Milhões de brasileiros deram seus votos de confiança. Depois de eleita, a conversa mudou.
O seu governo adotou uma política econômica totalmente diferente do que defendeu na campanha. Dilma passou a ser acusada então de praticar o que pode ser denominado de ‘estelionato eleitoral’.
E por mais paradoxal que possa parecer, o primeiro grupo político a se posicionar contra a nova política econômica proposta pelo governo do PT foi o próprio PT. O partido se posicionou contra as chamadas medidas de ‘arrocho fiscal’.
Para os dirigentes do PT, deputados e senadores, o PMDB deveria assumir a paternidade das ‘maldades’ propostas pelo governo Dilma contra o povo. No entanto, faltou combinar com o próprio PMDB.
Esse cenário é fruto da crença dos políticos que acreditam que os meios justificam os fins. Ou seja, que para ganhar uma eleição tudo é válido. Outra crença é a de que o voto legitima o gestor e seu governo.
Mas o que atribui legitimidade são os atos e as decisões do governante. A eleição atribui legalidade ao mandato. O voto não se cristaliza nas urnas, ele precisa ser legitimado na ação que se materializa nas políticas públicas.
O segundo governo Dilma perdeu a legitimidade antes mesmo de começar. As medidas propostas na contramão do discurso de campanha, a oposição do próprio partido do governo (PT), e os escândalos de corrupção revelados pela operação ‘lava-jato’ decretaram o fim da governabilidade.
Para piorar a situação, o governo Dilma permitiu que o Senado e a Câmara fossem presididos pelo PMDB, partido que está no poder desde a redemocratização. A lógica do fisiologismo chegou ao extremo sem encontrar no Planalto um político com capacidade de negociação à altura da complexidade do jogo.
Para complicar ainda mais, no alto da arrogância digna da cultura de caudilhos latino-americanos, ao invés de negociar, Dilma tentou ‘enquadrar’ o PMDB e acabou ficando isolada. O resultado não podia ser outro senão o ‘fim’ do seu governo.
O ‘impedimento’ é um remédio constitucional muito bem elaborado pelo legislador para um modelo de presidencialismo de coalizão exacerbado como é o sistema político brasileiro. Imagine se não houvesse essa alternativa constitucional. O país ficaria quatro anos refém de um presidente incompetente e de um grupo político patrimonialista, fisiologista e corrupto em detrimento dos interesses da sociedade como um todo.
Não que isso tenha sido dissipado com a presidência interina de Michel Temer (PMDB), muito pelo contrário. Mas, o presidente em exercício já foi presidente da Câmara duas vezes e entende de fisiologismo e da lógica política e dos políticos. Ou seja, é um profissional do ramo que pertence ao maior partido do Congresso e do Brasil.
A narrativa do ‘golpe’ tenta se afirmar nos livros de história como uma manobra para retirar do poder um governo legitimamente eleito. Esse discurso é uma estratégia válida como política eleitoral e de vitimização, mas esconde por trás de uma retórica uma realidade complexa que não pode ser resumida com uma pequena frase: ‘não vai ter golpe!’.
O chamado ‘golpe’ foi dado nas eleições e a vítima foi a sociedade. A reação da população nas ruas empurrou o sistema político para uma rota de ‘expurgo’ e o resultado é o impeachment.  
O processo eleitoral, as pedaladas fiscais, a falta de responsabilidade fiscal e os escândalos de corrupção foram parte de 'um grande golpe'. O PT chegou ao fundo do poço vítima do próprio veneno que dizia combater no passado: o patrimonialismo e o fisiologismo.
Depois de 13 anos no poder, o Partido dos Trabalhadores (PT) que também é 13, deixa um rastro de conquistas e de perdas para o país. Numa avaliação final, colocados numa balança, a pergunta que se faz é: qual pesa mais?  

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Povo brasileiro! Aperte o cinto: o governo sumiu!

O (des) governo Dilma entrou em rota de colisão com o seu fim antecipado sem perspectiva de salvação. Os seus aliados agem como kamikazes e a Presidenta persegue o seu haraquiri político cercada de plantadores de casca de banana por todos os lados.
A estratégia das oposições de provocar o desgaste e o descrédito do governo está funcionando e produzindo resultados, mesmo que em detrimento do país como um todo. A falta de confiança na política aprofunda as dificuldades econômicas e alimenta um cenário arriscado de deterioração progressiva.
Mas, o mais interessante é que a oposição está sendo ajudada pela própria base de apoio do (des) governo (se é que isso existe). E em muitos casos recebe uma mãozinha até da Presidenta em pessoa.
Dilma tem demonstrado total incapacidade de liderança e não consegue articular a governabilidade necessária para acalmar os mercados e colocar o país nos trilhos do crescimento econômico. Cada vez que ela tem uma oportunidade para discursar ou anunciar novas medidas a situação se agrava.
Os seus discursos tragicômicos impõem um descrédito desmedido para o que seria a maior liderança política do país. No sistema presidencialista brasileiro, a falta de um líder político com a capacidade de articular e de gerar governabilidade compromete a sua sustentabilidade.
Os índices de popularidade da Presidenta comprovam que o povo brasileiro sabe votar e, sobretudo, sabe no que está votando. Quem votou em Dilma sabe perfeitamente que ela não está fazendo o que prometeu na campanha.
Ao contrário, o seu (des) governo está totalmente descaracterizado. Existe um hiato entre o discurso de campanha e as ações de (des) governo. Neste sentido, não há como se falar de legitimidade.
Dilma se sustenta apenas na prerrogativa da legalidade do mandato. Só não se sabe até quando.
O discurso da legitimidade do voto não sustenta uma Presidenta que (des) governa distante de suas promessas de campanha. A legitimidade não se consolida, ou congela, no momento do voto.
A eleição garante a legalidade da representação, mas a legitimidade depende dos atos de governo que têm que estar em consonância com os compromissos de campanha. Se a pessoa que foi eleita muda as suas propostas e não cumpre os seus compromissos, a sua legitimidade pode e deve ser questionada numa democracia.
O mandato não permite que o governante faça o que bem entender. Não é possível ter um discurso de campanha e outro completamente diferente quando assume o governo.
A legitimidade de qualquer governo é construída através de suas ações e não apenas da eleição. E as ações de governo devem ser coerentes com os compromissos de campanha e com um projeto de país que é defendido durante os debates eleitorais.
Se não existe coerência entre o discurso de campanha e a ação de governo, é possível se falar de estelionato eleitoral. Os índices de popularidade do (des) governo Dilma são a prova de que o povo não está satisfeito com as medidas que estão sendo adotadas. Isso é o resultado da distância que existe entre o discurso de campanha e as ações do (des) governo.
Não há do que se falar em golpe neste caso. Golpe é usar um discurso para se eleger e governar de outra forma totalmente diferente.
O (des) governo Dilma acabou mesmo antes de começar. O seu discurso de campanha foi uma grande mentira. Os que acreditaram se sentem enganados com toda razão.
Uma pessoa, ou um político, pode enganar outras pessoas ou grupos. Mas, enganar milhões de brasileiros? Fica difícil.
Afinal, qual é o projeto do (des) governo Dilma? Depois de nove meses, não há resposta. Somente uma certeza, a Presidenta perdeu a legitimidade para governar.
O (des) governo Dilma não tem sustentabilidade. Sem apoio do Congresso e da população, prolongar a sua permanência é aprofundar a crise de governabilidade e de governança política e econômica.

Dilma deveria negociar os ajustes necessários para o país com o seu cargo na mesa, e preparar uma transição para um governo com capacidade de gerar legitimidade. Mas, acreditar que os políticos possam pensar no país e não em si próprios é querer demais. Enquanto isso, a crise se agrava e o país fica à deriva.

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Os desafios da democracia participativa no século XXI

Não há como dar conta de todos os desafios da democracia participativa no século XXI. No entanto, é possível apontar alguns que chamam a atenção a partir de experiências recentes.
No plano geral, o desafio é consolidar as experiências existentes em nível municipal, criar novas, e implantar em nível estadual e federal. Na Paraíba o destaque em nível municipal é para o Orçamento Democrático – OD (2005-2012) e o Orçamento Participativo – OP (a partir de 2013) em João Pessoa e, em nível estadual, O Orçamento Democrático Estadual – ODE (a partir de 2011).
Além dos governos, a Universidade Federal da Paraíba (UFPB) também implantou, a partir de 2013, um programa denominado de Universidade Participativa (UP), na perspectiva da democracia participativa. Neste caso, o objetivo é identificar as prioridades e estabelecer um diálogo da comunidade com a Reitora e sua equipe em audiências públicas em todos os centros. O desafio é mudar a cultura política organizacional e democratizar a decisão sobre a aplicação dos recursos que são públicos.
Mas, apesar de muitas experiências exitosas de gestão participativa no Brasil afora, o nível de informação e de transparência da gestão pública, que é essencial, ainda é baixo. Mais ainda, não se avançou no sentido do planejamento e da governança participativa.
Muitos não priorizam a informação como mecanismo de consolidação de uma memória histórica das políticas participativas. A criação de um banco de dados das políticas públicas nas diferentes áreas seria uma alternativa que poderia suprir essa fragilidade.
Quando ocorre uma mudança de governo ou de gestão, por exemplo, é comum que a memória vá junto com os arquivos pessoais dos que deixam os cargos. Os novos gestores ficam sem referência, e isso denota uma baixa institucionalidade das políticas na maioria esmagadora dos órgãos públicos do país.
Muitas vezes, as pesquisas na universidade sofrem com a falta de dados das políticas públicas. Os gestores dão muito pouca atenção a isso, pois são provisórios nos cargos e estão sempre almejando algo mais na frente.
Talvez, este seja um dos maiores desafios do século XXI para a democracia participativa: começar a pensar no legado das experiências do presente para as futuras gerações, e na história da sociedade como processo de construção coletiva de longa duração.
A história é pesquisada e sistematizada nas universidades e contada nas escolas. Mas, para fazer esse trabalho é preciso que as instituições comecem a agir como órgãos públicos republicanos comprometidos com o desenvolvimento e a memória do país.
Os dados podem fornecer os argumentos em favor da democracia participativa, pois esta pressupõe a prestação de contas, que envolve mais informação e transparência. Os grupos contrários à política participativa sempre procuram ‘rotular’ o processo alegando que se trata de ‘cooptação de lideranças’ ou de ‘populismo’.
A formação de novos quadros é um dos desafios da democracia participativa, ativando outros setores da sociedade para além do sistema representativo. Não se trata, porém, de uma formação ‘dentro’ do Estado com objetivo de autolegitimação. Trata-se do Estado criar as condições para que a expressão da sociedade possa ir além do monopólio da representação político-eleitoral.
Os orçamentos participativos também são rotulados por esses mesmos grupos de ‘políticas focalizadas’ nos menos favorecidos. No entanto, as políticas voltadas para um determinado grupo social acabam impactando na sociedade como um todo. Os dados quantitativos e qualitativos das experiências existentes podem dar uma resposta consistente sobre o caráter universal da democracia participativa.
A missão é comprovar que a gestão participativa pode ser exitosa e melhor do que a política decidida no gabinete por poucas pessoas. Do contrário, como ampliar a cultura da participação? É preciso entender a participação como processo de legitimação da decisão.
A democracia participativa tem que deixar de ser uma política de governo para ser uma política de Estado. E o desafio é mostrar com dados que a participação tem um papel importante na construção da cidadania e da própria democracia.
Outro desafio é desenvolver uma cultura participativa dentro do governo, nas diferentes secretarias. A gestão participativa deve ser na saúde, na educação, infra-estrutura, meio ambiente etc.
O governo deve prover o devido suporte aos espaços de participação, como no caso dos conselhos de saúde, educação, assistência social, desenvolvimento urbano, meio ambiente etc. Além disso, é importante governar consultando a sociedade, os especialistas e os movimentos sociais organizados.
De nada adianta promover um orçamento participativo e não privilegiar as instâncias de participação como os conselhos. É preciso governar com ‘reflexo democrático’.
Não adianta promover um processo participativo e fazer intervenções sem consultar a sociedade. É importante dialogar mais e prestar contas do que se pretende fazer, do que já foi feito, e do que pode e não pode ser realizado.
Muitos estudos sobre políticas participativas se concentram no percentual de recursos financeiros investidos, que é geralmente 10% do montante total. Isso pode provocar descrédito para alguns, como se houvesse apenas um interesse eleitoreiro para beneficiar o gestor que realiza encontros constantes com a população para ouvi-la. O desafio é aumentar substancialmente esse percentual e fortalecer as relações entre a gestão pública e a sociedade.
Outro grande desafio é desenvolver de forma criativa e permanente a metodologia participativa sem perder de vista a essência que é o contato entre a comunidade e o gestor, com as devidas demandas e prestação de contas. Além dos encontros presenciais, novas ferramentas (como internet e redes sociais) devem ser cada vez mais utilizadas como mecanismo de comunicação.

Por fim, deve-se romper a barreira do público mais carente e alcançar outros segmentos da população que podem contribuir também com sugestões, prioridades e exercer o tão propalado controle social sobre o governo. Para tanto, os conflitos decorrentes dos interesses dos políticos eleitos pelo sistema representativo (vereadores e deputados), e a falsa dicotomia da democracia participativa versus democracia representativa, devem ser superados.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

O governo Dilma e a crise: do início ao fim.

O governo Dilma ainda não conseguiu se livrar do terceiro turno eleitoral e sofre as conseqüências da maior polarização política com características de ‘classes antagônicas’ já vistas no Brasil contemporâneo. Cada vez mais isolada e sem rumo, a Presidenta corre sério risco de não terminar o seu mandato.
A estratégia das oposições de ‘sangrar’ o governo até cair e livrar o país do Partido dos Trabalhadores (PT) tem funcionado até agora. A crise econômica é alimentada todos os dias pelas oposições que criam no imaginário coletivo um cenário de caos que termina por engendrar um ciclo vicioso que afugenta os investidores e cria um clima de incerteza cada vez maior.
Para as oposições, o cenário é o melhor possível, com grandes perspectivas de alternância de poder no horizonte, mesmo que em detrimento da estabilidade do país como um todo. Não importa a magnitude do problema e o impacto social que causa na população. Quanto pior, melhor.
Se o governo continuar acertando e o país melhorando, o PT vai continuar no poder, e isso não é ‘aceitável’ para as oposições derrotadas no processo eleitoral. Ou seja, grande parte da população não tolera mais os sindicalistas, marxistas e ex-pobres ocupando espaços de destaque na política, na gestão pública, mas também nos aeroportos, hotéis, lojas de automóveis, com moradias dignas entregues ‘de graça’ etc., coisas que antes eram reservadas apenas para as elites intelectuais e econômicas.
Todo esse clima de insegurança começou bem antes do primeiro turno das eleições. Os candidatos das oposições lançaram mão do discurso da crise fiscal para conquistar os eleitores diante de um governo com bons resultados para apresentar. O discurso era de que os bancos estatais estavam quebrados; o Brasil estava caminhando para o abismo; não sabiam se sobraria alguma coisa para quando assumissem o governo. O mais puro terrorismo eleitoral não passou impune pela sociedade e principalmente pelos mercados financeiros.
De um lado, a alternativa das oposições era o receituário ortodoxo neoliberal de ajuste fiscal para resgatar a economia e tirar o PT do poder. De outro, a Dilma defendia a política do seu governo de investimentos e subsídios, e que havia garantido até então o crescimento econômico mesmo que pequeno num cenário internacional adverso.
A maioria da população decidiu dar o voto de confiança na continuidade do modelo de desenvolvimento com participação do Estado e distribuição de renda. No entanto, ao tomar posse a presidenta Dilma nomeou um ministro da economia com pouca habilidade política e que reza na cartilha do Fundo Monetário Internacional (FMI), um receituário ortodoxo comprovadamente ineficaz, sobretudo num país como o Brasil.
Ou seja, o governo passou a promover a redução do fluxo de dinheiro na economia, cortando investimentos e aumentando a taxa de juros e os impostos. O resultado esperado é uma recessão que acabe com a inflação, e quem sabe com o próprio país.
Dilma deve ter imaginado que a escolha de um ministro com esse perfil acalmaria as oposições. No entanto, as medidas de austeridade acabaram desagradando a todos, e as pesquisas de opinião comprovam isso.
De um lado, as oposições passaram a acusar Dilma de estelionato eleitoral por estar aplicando as medidas de ajuste que eles propagavam como sendo as necessárias durante a campanha eleitoral. De outro, a base governista se sentiu traída e passou a contestar o próprio governo com perfil desfigurado pela política econômica do ministro Levy.
O Brasil de 2015 continua sendo o mesmo de 2014. O mercado de consumo é enorme, os problemas sociais não se comparam com o que a Europa e até países da América Latina estão passando. Houve muito avanço na área de infra-estrutura e no desenvolvimento social. Portanto, o Brasil deveria ser um excelente lugar para se investir.
No entanto, se nós mesmos dizemos todos os dias o contrário, os investidores estrangeiros têm motivos para desconfiar. Essa crise de auto-estima deriva da revolta dos que não aceitaram até agora o resultado das urnas.
Além da crise fiscal e inflacionária, o governo enfrenta várias outras. A começar pela crise hídrica, que compromete não somente o abastecimento humano, animal e das lavouras, como todo o sistema de geração de energia e boa parte da produção que é escoada por cabotagem. Isso gera um prejuízo financeiro enorme para empresas, além do desemprego no setor, e termina por encarecer o preço da energia que alimenta a inflação.
Outra grande crise é a ética. A operação lava-jato revela as profundezas do patrimonialismo no país, que é histórico e endêmico em todos os níveis. Mas, neste caso, o governo federal merece todos os créditos por não interferir, e o país demonstra com isso um amadurecimento institucional, mesmo que de forma pontual.
Pela primeira vez, pessoas estão sendo presas e processadas por corrupção. No entanto, as empreiteiras envolvidas nas grandes obras de infra-estrutura estão impedidas de continuar o trabalho e isso deixa o governo de mãos atadas para movimentar a economia. As empresas não recebem, demitem, e entram numa espiral negativa.
Existem grandes refinarias que estão quase prontas, mas que as obras foram paralisadas e milhares de pessoas foram demitidas devido à operação lava-jato. Com isso, outros países ganharam mais tempo para vender os derivados de petróleo que nós mesmos poderíamos estar produzindo, gerando emprego, renda e riqueza.
Qualquer leigo sabe que a economia brasileira depende da contratação de grandes obras e serviços por parte do Estado em todos os setores. Ou seja, o prejuízo pela paralisação é de milhares de empregos e consumidores que deixam de comprar e isso atinge todos os setores da cadeia produtiva, de serviços a produção de bens, e causa uma brutal queda de arrecadação de impostos.
Com o fechamento dos cofres do governo, a economia entra em recessão. A conseqüência é a queda na arrecadação e um círculo vicioso se reproduz.
Além desses problemas, ainda tem o Congresso Nacional cada vez mais ‘autônomo’, ou rebelde, como se estivesse numa espécie de crise de abstinência de propinas e mensalões. Afinal, a fonte secou. E, infelizmente, os nossos parlamentares (e políticos em geral) não têm projetos para o país ou alguma utopia para defender. O que move os políticos no Brasil são os interesses patrimonialistas que estão muito distantes dos interesses da sociedade como um todo. Brasília parece ser um país distante do Brasil, ou quem sabe um outro planeta.
Para completar, Dilma vai ter que enfrentar a Controladoria Geral da União (CGU) e a aprovação das suas contas de governo no Congresso Nacional, acuada e fragilizada. As oposições estão ganhando a batalha e a estratégia de ‘sangrar’ até cair está funcionando.
Afinal, quando ligamos a televisão o que vemos é o fim do mundo. O Brasil quebrou. O Brasil está no fundo do poço. Não há notícia boa. Quando há, os jornalistas ficam até constrangidos, como se estivessem contribuindo para ajudar o governo do PT. Quando a manchete estampa que o Brasil alcançou mais um recorde negativo podemos ouvir os gritos no final da rua.
Afinal, tudo se justifica para destituir o governo dos ‘vermelhos’ e substituí-lo pelo ‘verde e amarelo’. A intolerância chegou ao nível mais baixo que até a intervenção militar faz parte das reivindicações.
As oposições perderam as eleições, mas conseguiram polarizar o país. Com um cabedal de quase 50% do eleitorado, não querem permitir que o governo seja bem sucedido, mesmo que em detrimento da maioria da população mais carente que sofre as conseqüências de uma crise alimentada pelas elites políticas que pouco se importam com o povo brasileiro.
Quanto aos comentaristas dos principais jornais e revistas, esses atuam como profetas do apocalipse. A pauta é o caos e a expectativa é a queda do governo. A palavra de ordem é extirpar o PT do poder.
O governo Dilma paga o preço pela falta de planejamento do seu primeiro governo, e pela manutenção da incompetência institucionalizada de carteirinha em vários setores. Sem rumo e acuada, a última alternativa é buscar apoio nas velhas estruturas do sistema político do toma-lá-da-cá. É o fim. 

segunda-feira, 27 de abril de 2015

O Brasil em crise. Existe um país para além do Sudeste?

É sabido que a edição do noticiário ‘nacional’ no Brasil é produzida na região Sudeste, em São Paulo e Rio de Janeiro, por razões que são historicamente dadas. No entanto, este fato provoca cada vez mais um hiato entre a realidade relatada pela grande mídia e a vida do cidadão comum nas diferentes regiões do país. Esse fenômeno sempre existiu, mas com as novas mídias as suas contradições ficam mais expostas.
A realidade do paulista não é a mesma do paraibano, ou do goiano e assim por diante. A crise que se vive lá não é a crise que se vive aqui e vice-versa. O Brasil é um país continental que deixou de concentrar todo o seu desenvolvimento em torno de São Paulo, apesar de ainda ser o estado economicamente mais importante. Muitas empresas e indústrias estão se ‘deslocando’ para outras regiões do país em busca de melhor infraestrutura, logística, novos mercados e, por que não dizer, qualidade de vida para os seus empregados produzirem mais e melhor.
No entanto, essa nova realidade de uma economia mais descentralizada e heterogênea não aparece no noticiário ‘nacional’ de forma clara e perceptível. As informações gravitam em torno da região Sudeste, como representante de um país inteiro, que concentra o poder econômico, político e da informação.
A crise que atinge a região Sudeste é o resultado da perda de empresas e empregos que antes confluíam naturalmente para lá. Entretanto, existem regiões no país que recebem novas empresas e que não conhecem a mesma crise dos paulistas, ou até não conhecem crise alguma. Muito pelo contrário.
Mas, todos os dias são disseminados no noticiário ‘nacional’ que o país como um todo está numa grave crise, como se todos fôssemos paulistas ou cariocas. Mas, aí alguém pode dizer que os dados macroeconômicos demonstram efetivamente a existência de uma crise no país como um todo. A crise hídrica, por exemplo, é um fenômeno que não se restringe mais apenas ao Nordeste.
É sabido que a economia não é uma ciência exata e sim aplicada, e que depende de expectativas positivas para produzir cenários futuros no presente. Mas, como ter um cenário futuro promissor com uma perspectiva tão negativa e enviesada produzida por quem está no ‘olho do furacão’ de uma crise?  
No noticiário ‘nacional’, a culpa de todos os problemas sempre é dos governos sem que seja questionada a falta de criatividade do mercado, dos empresários e dos próprios governantes dos estados para buscar alternativas ou medidas que alavanquem o desenvolvimento. Nós, brasileiros, estamos sempre em busca de um culpado, de um salvador da pátria e de um chefe que diga o que fazer. Enquanto não se sabe, cada um se vira como pode sempre querendo levar vantagem em tudo, mesmo que os interesses individuais se sobreponham aos interesses coletivos, ou que os interesses patrimonialistas de grupos se sobreponham aos interesses da sociedade.
Os gestores dos estados e municípios tendem a culpar o governo central que por sua vez tende a culpar a conjuntura internacional. Enquanto isso, os governantes desviam os recursos públicos, e os empresários ‘deslocam’ o capital para outras regiões, outras aplicações financeiras e até mesmo outros países para garantir, cada um, o seu pirão primeiro. Então, de que crise nós estamos realmente falando?